Peixe-boi é devolvido à natureza em Alagoas

Reintrodução do animal aconteceu no interior da Área de Proteção Ambiental Costa dos Corais

Após um período de adaptação de aproximadamente cinco meses na base do Instituto Chico Mendes em Porto de Pedras (AL), Diogo foi finalmente devolvido à natureza. O peixe-boi marinho de seis anos de idade, 314 kg e 2,5 metros deixou seus companheiros de cativeiro, Ive e Raimundo, e ganhou as águas do rio Tatuamunha, localizado no interior da Área de Proteção Ambiental (APA) Costa dos Corais – unidade de conservação administrada pelo ICMBio entre os litorais de Pernambuco e Alagoas.

A reintrodução de Diogo aconteceu na última quarta-feira (29) e contou com a presença de 12 jornalistas de diversas partes do país (clique aqui e saiba mais sobre a visita dos profissionais de comunicação à APA Costa dos Corais). Essa atividade faz parte das ações do Programa Peixe-Boi, coordenado pelo Centro Nacional de Pesquisa e Conservação da Biodiversidade Marinha do Nordeste (Cepene/ICMBio), com apoio da Fundação Toyota do Brasil e da organização não-governamental SOS Mata Atlântica.

Do resgate à reintrodução

Resgatado após encalhe na praia de Diogo Lopes, no Rio Grande do Norte, o animal passou por uma fase de reabilitação nas piscinas do Programa Peixe-Boi, na Ilha de Itamaracá (PE). Cinco meses atrás, foi transferido para um cativeiro de 1000 m² em ambiente natural, já na APA Costa dos Corais. Depois de cumprir um protocolo que envolve peso mínimo e realização de exames, Diogo foi considerado apto para voltar à natureza.Sob o comando da veterinária Fernanda Attademo, cerca de 30 pessoas atuaram na equipe de soltura do peixe-boi, que primeiro precisou ser retirado da água para colocação do equipamento de GPS e, na sequência, foi conduzido para fora do cativeiro. O aparelho de localização por satélite ajuda a entender os deslocamentos do animal e o uso do habitat, auxiliando o monitoramento pós-soltura, mais intenso nos primeiros três meses. De acordo com a veterinária, esse acompanhamento permite gerar dados que subsidiam a indicação das áreas consideradas importantes para a conservação do peixe-boi.


“As pessoas envolvidas nesse trabalho estão contribuindo para definir o futuro de uma espécie”, ressalta Fernanda. Para o chefe da APA Costa dos Corais, Iran Normande, a sensação é de dever cumprido: “Uma etapa longa foi superada. O momento da devolução do animal à natureza é muito simbólico e nos inspira a continuar trabalhando”. Segundo Iran, esta é a 44ª soltura desde 1994 e a segunda este ano. “Lua, a primeira peixe-boi a ser reintroduzida, está hoje com 25 anos, bem de saúde e reproduzindo”, comemora. O objetivo dessas reintroduções, ainda de acordo com o chefe da APA, é reconectar as populações do animal que atualmente encontram-se isoladas, aumentando o número de indivíduos e ampliando a variabilidade genética da espécie.
Treinamento

O ICMBio aproveitou o dia da devolução de Diogo para realizar um treinamento com a equipe da Reserva Extrativista (Resex) Marinha de Cururupu – unidade de conservação localizada no estado do Maranhão – sobre manejo, soltura e acompanhamento do peixe-boi. O objetivo é iniciar o monitoramento participativo na reserva para avaliar a população da espécie em território maranhense, ainda bastante desconhecida. “Isso permitirá uma conexão entre as ações do ICMBio relacionadas ao peixe-boi nas diversas áreas de ocorrência e entre as unidades que trabalham com a espécie”, pontua Laura Reis, coordenadora de Pesquisa e Monitoramento da Resex de Cururupu.

Sobre a espécie

Animal dócil e de hábitos solitários, o peixe-boi marinho (Trichechus manatus) é um mamífero herbívoro que se alimenta de capim-agulha e folhas do mangue, ingerindo de 8% a 13% do seu peso diariamente. O animal pode atingir 600 kg e medir até 4 metros. De acordo com especialistas, costuma levar de 3 a 4 minutos submerso entre cada respiração, podendo, em situações extremas, ficar até 20 minutos embaixo d’água.

Com ocorrência de Alagoas ao Amapá, o peixe-boi teve sua população reduzida sobretudo devido à caça. “A espécie não tem predador natural. Seu único predador é o homem”, explica Iran Normande. Hoje, o principal problema já não é mais a caça, e sim a perda de habitat, pois muitos manguezais vêm sendo usados para criação de camarões em cativeiro. Sua baixa taxa reprodutiva também dificulta o repovoamento: a espécie atinge a maturidade sexual somente aos seis anos de idade (pode viver até os 60), a gestação dura 13 meses e o filhote é amamentado ao longo dos primeiros dois anos de vida.

As ações do Programa Peixe-Boi vêm contribuindo para melhorar esse quadro: na última Lista de Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção, divulgada em 2014, o peixe-boi deixou a categoria “Criticamente em Perigo” e passou a ser apontado como “Em Perigo”. A estimativa populacional também deu um salto, de 500 para 1000 indivíduos. Além disso, a quantidade de filhotes que tem sido avistada nos últimos anos é mais um importante indicativo de que os peixes-bois estão reproduzindo e aumentando sua população.

Turismo de base comunitária: peixe-boi promove geração de renda

A partir do trabalho de sensibilização dos moradores da APA Costa dos Corais para a conservação do peixe-boi, houve o fomento ao turismo de observação da espécie, que se tornou um ativo econômico da região. Segundo informações da Associação Peixe-Boi, responsável pelo turismo de base comunitária no município alagoano de Porto de Pedras, a atividade gera empregos diretos e melhoria na renda para cerca de 70 famílias, sem contar os ganhos indiretos, a exemplo do artesanato relacionado ao peixe-boi.

A associação organiza passeios de jangada pelo rio Tatuamunha, onde diariamente até 70 visitantes podem observar os animais em seu ambiente natural. “A maioria não tem conhecimento prévio sobre a espécie e, muitas vezes, nem sabem que existe um animal como esse no Brasil. As pessoas saem do passeio encantadas com o que viram”, destaca Flávia Rêgo, presidente da Associação Peixe-Boi.