Pesquisa amplia conhecimento sobre diversidade de insetos galhadores e plantas hospedeiras

Galhas foliares coletadas no Mato Grosso em 2013. Material ainda sem identificação – Fotos: Maria Virgínia Urso-Guimarães

Estudo da UFSCar identificou pela primeira vez a ocorrência de algumas espécies no Mato Grosso do Sul

Provavelmente você já viu uma galha entomógena, mas nunca a chamou por este nome e, portanto, nem sabe disso. Galhas são estruturas formadas em plantas por crescimento celular anormal – algo como tumores -, em resposta a estímulos causados por organismos como insetos, vermes, fungos ou bactérias. No caso dos insetos, eles depositam seus ovos no tecido vegetal, que se transforma completamente a partir desse contato. Esse tecido, em qualquer parte da planta – folhas, ramos, flores e frutos -, forma um casulo, que passa a ser o local de desenvolvimento, abrigo e nutrição das fases imaturas do inseto até que chegue à vida adulta. Em sua maioria, as galhas estão localizadas nas folhas das plantas e, em alguns casos, apresentam belas formas e cores. Uma característica interessante é que as galhas são espécie-específicas, ou seja, cada tipo de galha só ocorre em uma determinada planta, e a partir da interação com uma única espécie de inseto galhador.
Uma pesquisa publicada recentemente na Revista Brasileira de Entomologia estudou justamente a ocorrência e fez a caracterização de galhas no Mato Grosso do Sul (MS), em áreas de quatro biomas: Floresta Amazônica, Cerrado, Pantanal e Chaco. O estudo, coordenado por Maria Virgínia Urso-Guimarães, docente do Departamento de Biologia (DBio) do Campus Sorocaba da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), identificou 186 tipos de galhas, em 115 espécies de plantas hospedeiras de 35 famílias. A partir dessas galhas, foi possível obter e identificar os insetos indutores de 50 morfotipos de galhas. Destes, 78% integram a família Cecidomyiidae – responsável por 80% das galhas conhecidas no mundo – e foram registrados pela primeira vez no Mato Grosso do Sul. Além disso, 24 espécies de plantas, de quatro gêneros, foram registradas pela primeira vez como hospedeiras.

Galhas em folhas de uma espécie de Pouteria

Além de Urso-Guimarães, são responsáveis pelo estudo também Ana Carolina Devides Castello, graduada e mestre pela UFSCar e, atualmente, doutoranda na Universidade Estadual Paulista (Unesp); Eric Yasuo Kataoka, biólogo pela UFSCar e hoje mestrando na Universidade de São Paulo (USP); e Ingrid Koch, ex-professora do DBio e, agora, docente da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Para a pesquisa, foram realizadas coletas de galhas em oito áreas naturais do MS, sendo duas em cada um dos quatro biomas estudados, em três expedições ao longo de 2012 e 2013. Esse material foi levado ao laboratório para a descrição morfológica das galhas e identificação das plantas hospedeiras e, quando possível, dos insetos galhadores.
“Quando você encontra um morfotipo de galha nunca descrita anteriormente, é grande a probabilidade de termos uma nova espécie de inseto galhador, já que cada espécie induz uma galha própria. No entanto, da identificação da galha à descrição de uma nova espécie de inseto galhador há um longo caminho a ser percorrido. Não adianta encontrarmos o inseto galhador na natureza, porque não saberemos qual é sua galha. Precisamos, então, torcer para que haja larvas na galha e, também, para que elas se desenvolvam em pupa e obtenhamos, no mínimo, um macho adulto durante a criação em laboratório. Se encontrarmos apenas a galha, é preciso esperar até a próxima primavera e começar tudo de novo”, explica a pesquisadora da UFSCar. “Para conseguirmos fazer a descrição de uma nova espécie de cecidomiídeo, é preciso que tenhamos no mínimo o conjunto de galha, larva, pupa e macho adulto, embora uma descrição completa torne desejável o conjunto completo, com machos e fêmeas. Em relação ao macho adulto, sua importância diz respeito ao fato de que, em geral, é a terminália masculina [órgão sexual] que diferencia uma espécie da outra”, complementa.

Inseto da família Cecidomyiidae

Diversidade
Dentre os insetos galhadores, a família mais comum é, como visto, a dos cecidomiídeos. Em todo o mundo, são mais de seis mil as espécies descritas. No Brasil, no entanto, há apenas cerca de 500 espécies de cecidomiídeos já descritas, o que indica uma grande lacuna no conhecimento sobre esses animais e suas plantas hospedeiras. “Os insetos da família Cecidomyiidae não atacam plantas de valor comercial, o que em grande medida explica essa carência de pesquisas. Já as galhas induzidas por nematoides, em vegetais importantes para a agricultura, são super estudadas”, explica Maria Virgínia Urso-Guimarães.
Urso-Guimarães integra o projeto Sisbiota-Diptera, financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), juntamente com vários outros pesquisadores de 15 instituições brasileiras. O objetivo do projeto é justamente o estudo dos dípteros – ordem à qual pertence a família Cecidomyiidae – nos Estados de Rondônia, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Antes da inciativa, das 170 espécies de Cecidomyiidae conhecidas no Brasil, apenas uma havia sido registrada para essa área, no Mato Grosso, por Urso-Guimarães e seu então orientador de doutorado, Dalton de Souza Amorim. Desde o início das pesquisas do Sisbiota-Diptera, 300 espécies já foram registradas para os três Estados, dentre as quais cerca de 60% são novas para a Ciência, o que indica que ainda há muita história a ser contada sobre esses pequenos mosquitos e suas obras de arte vegetal.