Cleo Pires fala sobre sobre sexo, política, assédio, entre outros assuntos

A atriz é capa da Glamour Brasil de agosto

Foto: Gil Inoue

“Se você fala sério sobre sexo, reclamam que é chato. Se você fala com humor e honestidade sobre o assunto, te chamam de piranha.” Cleo interrompe a fala. Reflete. “Quer saber? Piranha para mim não é xingamento, é quase um elogio.”

Te dá prazer ser polêmica? Não gosto de ser polêmica, mas gosto menos ainda de ser hipócrita. E, muitas vezes, os temas são descontextualizados. Não é que eu acorde num dia sem ter o que fazer e poste nas redes sociais: “Bom dia, hoje fiz um ménage com dois homens”.

Mas fez? Era um quadro do programa do Caio Fisher, meu amigo, que se chama Eu Já. Ele perguntou se eu já havia ficado com mulher. Não, eu nunca fiquei com mulher. Depois, quis saber se eu já havia feito ménage à trois. Sim, eu fiz. Nas redes sociais, começaram mil comentários. “Nossa, mas se ela não ficou com mulher e fez ménage, então, transou com dois homens.” Sim, dá para transar com dois homens, ué. Aquilo tinha um contexto, era uma resposta a uma pergunta. Me dá uma preguiça imensa perceber que sexo, a essa altura do campeonato, ainda gera essa comoção.

Mas quando você vira trending topic… Aí eu fico com vontade de tomar uma pílula para dormir e só acordar quando a polêmica já for outra. O que mais me deixa irada é que concluo que isso só acontece porque vivemos numa sociedade desigual. Se um homem quiser falar dessas coisas, ele pode. Mas, se for mulher, é piranha. E isso é machismo.

Você é feminista? Precisamos ser radicais? Sou feminista. E sim, precisamos. O não é não, não existe mais meio-termo. O caso da figurinista da Globo que sofreu assédio do Zé Mayer é representativo. Formou-se um grupo de mulheres dentro da própria emissora para dar apoio a ela. Aquela situação não era minha, mas me tocou. Por sororidade, aderi ao movimento.

Você já foi assediada? Sempre me perguntavam isso e eu dizia que não. Hoje, a minha resposta é outra. Eu dizia não porque não sabia que havia sofrido assédio. Mas, ao falar sobre o tema, você repensa, reflete e se autoanalisa. Sim, hoje tenho certeza que já fui assediada.

Você dizer que já transou algemada deu tanto clique quanto polêmicas políticas. Não acha isso desproporcional? Você é politicamente engajada? Sexo gera interesse. Dependendo de quem, também me interesso pela vida sexual dos outros. Mas não mais do que pela nossa situação política atual. Não vou à passeata, mas me envolvo porque, às vezes, penso que pode ser um efeito borboleta: se bater as asas aqui, vai causar um furacão ali. Não fui a favor do impeachment porque era inconstitucional. Diretas já, agora, também são, mas o que estamos vivendo é ainda mais. A culpa maior é do nosso sistema, que foi feito para ser corrompido. Precisamos mudá-lo!

Você tem esse corpo sem musculação? Esse corpo, no caso, flácido? Pelas fotos não tem nada de flácido aí. Amor, mas foto a gente trabalha com luz, com ângulo. Até com aplicativo… Jamais usaria para ter um corpo que não tenho, mas aquela arrumadinha, às vezes, que mal tem?

Você se entedia rápido? Não gosto de me alimentar de uma coisa só, nem de colocar minha energia num só assunto. Quando isso acontece, me sinto sufocada, mata meu espírito.