Falta de comunicação é uma das causas do baixo número de doadores de órgãos

Gratidão é a palavra que resume o sentimento de Alzerino do Prado, o Zico, a uma desconhecida de 36 anos e à generosidade de sua família, que autorizou a doação dos órgãos após a morte dela em um acidente, oportunizando a Zico receber um pulmão saudável, em 2014. Que o assunto deixe de ser um tabu é a esperança da advogada Analia Goreti da Silva, uma das 70 pessoas que aguardam na fila por transplante de pulmão no Rio Grande do Sul. Zico, morador de Joaçaba (SC), e Analia, de Campo Bom, no Vale do Sinos, se conheceram na tarde desta segunda-feira, dia 25, durante o III Encontro sobre Doação de Órgãos, realizado pelo Hospital Centenário em parceria com a Santa Casa, e os relatos das experiências vividas por eles emocionaram a pateia.
Zico tem 59 anos e Anália 58, e os dois receberam o mesmo diagnóstico, há alguns anos: fibrose pulmonar idiopática, uma doença progressiva que os incapacitou de respirar sozinhos ao longo do tempo e os colocou na dramática lista de espera por um transplante de pulmão, sendo que Analia tem sua situação agravada por ter sido acometida também por hipertensão pulmonar. Transplantado, Zico leva uma vida normal, mas Analia ainda depende de um doador para ter a sua rotina de volta. No Brasil, mais de 40% das famílias não autorizam a doação de órgãos e isso se dá por diversas razões, porém, o fator preponderante é o fato de  não termos a cultura de comunicar que somos doares. “Muito há que ser melhorado, a negativa familiar ainda é muito alta”, enfatizou a enfermeira da Santa Casa Quelen Machado.
Segundo ela, o RS está em quarto lugar no ranking de doadores do país, e o objetivo é saltar dos 16,2 doadores por milhão de população em 2017 para 24 em 2021. Para atingir esta meta, ou até mesmo superá-la, é preciso muito trabalho. “Setembro é o mês de incentivo à conscientização pela doação de órgãos, mas precisamos falar sobre isso o ano inteiro”, reforçou Quelen, ao referir-se ao dia 27, Dia Nacional da Doação de Órgãos.
“Transplante ainda é tabu porque pensamos na morte de alguém para dar vida a outro alguém, mas podemos ver esta situação  por outro ângulo, como a forma de manter vivo alguém a quem amamos, autorizando a doação dos seus órgãos, porque um doador pode salvar oito pessoas”, disse Analia, que vive com muitas limitações em razão da doença. “Eu não posso mais andar sozinha, nem dirigir, mas me sinto privilegiada porque posso voltar para casa todos os dias, enquanto muitos vêm de cidades e estados distantes e precisam  e ficar longe de suas famílias.” Zico passou por isso, mas recebeu a vida de volta. “É muito cruel você não conseguir respirar, é uma angústia sem tamanho, principalmente à noite. Mas agora minha vida é agradecer, agradecer e agradecer.”
No Centenário, a Comissão de Transplante e Doação de Órgãos atua na organização do processo de captação de órgãos, na identificação de potenciais doadores, com abordagem adequada aos familiares, e  na articulação do hospital com a Central do Estado, visando ampliação qualitativa e quantitativa na captação de órgãos. A Comissão é presidida pela enfermeira Cláudia Silva, tendo como integrantes as enfermeiras Gimeni Carvalho, Fernanda Estrella, Maria Iolanda Machado, Danusa Jost e Neusa David; a psicóloga Lóide Machado, e  o médico Nery Matos Jr.