Porque a França e o Brasil protegeram Battisti?

Itália volta a buscar a extradição de Cezare Battisti — Foto: Agência Brasil

Por Arthur Kant*

Em Paris, a propaganda da “esquerda caviar”. Em Brasília, interesses políticos e instrumentalização. Hoje, muita coisa mudou, e agora Cezare Battisti talvez seja extraditado para Itália.

Em 2009, o ministro da Justiça brasileiro, Tarso Genro, expoente trotskista do Partido dos Trabalhadores que fazia parte do governo de Luiz Inácio Lula, negou a extradição e lhe concedeu o status de refugiado “fundado no medo da perseguição política”.

Naquela época, escritores e intelectuais de meio-mundo como Gabriel García Márquez, Fred Vargas, Daniel Pennac e Bernard-Henri Lévy, ainda fizeram aplausos por ele. Até Carla Bruni, naquela época a primeira-dama da França, protestou a favor de sua inocência.

Proteção francesa

Certamente, nenhum deles tinha visto os procedimentos judiciais infinitos ou as muitas sentenças que o condenavam a pena de morte por quatro homicídios. Cezare Battisti, agora com 63 anos, definido por crônicas como “ex-terrorista”, mesmo com um passado de criminoso comum, é absurdamente transformado em ícone pela “esquerda caviar” parisiense.

Foi também por pressão de intelectuais, escritores e da esquerda caviar francesa, que os governos franceses de 1991 a 2004 negaram a extradição do assassino de quatro pessoas. E ainda hoje, ninguém entende por que a França era tão carinhosa com Battisti.

Estes intelectuais parisienses haviam sido convencidos por uma propaganda, que a Itália nos anos setenta era semelhante a uma máquina de extorsão judicial, onde uma série de leis autoritárias e um magistrado de posse de uma guilhotina tinham corrompido o estado de direito, para lutar e derrotar o terrorismo, de todas das cores.

Conversão política

Embora tenha havido algum excesso, na verdade sobre este período, quanto a Battisti, se construiu uma caricatura da realidade. Certamente, não houve uma justiça excessiva sobre ele, condenado quatro vezes por assassinatos voluntários, violentos e implacáveis, e cuja toda história existencial parece associada ao cinismo, transformação e violência oportunista, muitas vezes sem justificativa.

A mesma aura ideológica de Battisti parece usurpada. Porque o homem parece nas crônicas e tribunais, trivialmente, como um ladrão em 1972 (data de sua primeira prisão) e depois novamente como ladrão em 1974. Ele é um criminoso comum que também que também enfrenta acusações de libido violenta e violência privada.

Sua “conversão política” ocorre na prisão, em Udine, graças ao encontro com um verdadeiro terrorista: Arrigo Cavallina.

Mas a impressão de que os pesquisadores e os juízes sempre tiveram e transmitiram em processos judiciais, é que a atividade batizada realizada por Battisti dentro do PAC (Proletários armados para o Comunismo), foi pelo menos em parte instrumental: “oficialmente” o homem roubou e matou freneticamente em nome de um ideal político,  mas quase sempre em suas ações revelou a explosão de uma violência reprimida e até a busca – muito mais terrena e racional – do enriquecimento pessoal.

Asilo político do Brasil

Mais fácil de entender é porque durante oito anos, o então presidente Lula e, em seguida, Dilma Roussef, deram vergonhoso asilo político, jurídico ou factual a Battisti: os movimentos dos governos demagógicos foram ditados por questões políticas, talvez pela ideia de poder usá-lo como meio de pressão econômica contra a Itália.

Hoje, no entanto, muitos anos depois, o Brasil poderia finalmente extraditar Battisti. Por quê? Porque, desde agosto de 2016 a atitude política do país mudou profundamente, com o novo presidente Michel Temer.

É verdade que Battisti, com a habilidade habitual de interpretar oportunisticamente o meio ambiente e sufocar o ar negativo, já estava no processo de fugir da Bolívia.

Ele deveria ter sido extraditado para a Itália e, de uma vez, a justiça teria sido feita.

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Arthur Kant é colaborador do Portal revistanews.com.br