Seminário Dandara lota a Câmara de Vereadores

O Seminário Dandara, presente! Precisamos falar sobre o feminismo negro, lotou a Câmara de Vereadores na tarde de quarta-feira, 08 de novembro. As reflexões levantadas pelas cinco painelistas contextualizaram a mulher negra no passado e no momento atual, apontando situações críticas e debatendo mudanças. A palavra resistência norteou todas as apresentações e discursos, traçando uma linha de reflexão entre as palestrantes.

A chefe do Departamento de Igualdade Racial, Nadir Maria de Jesus, foi a primeira palestrante a falar e explicou, para as crianças presentes no evento, que as características específicas do corpo negro são adaptações ao ambiente de calor extremo do continente africano. Seguindo o discurso, contou sobre a história de Dandara, lembrada sempre pela figura do marido, Zumbi dos Palmares, nunca pelas suas lutas e conquistas, enquanto mulher e lutadora. “Dandara nos representa, ela representa cada mulher que está presente aqui, cada cabelo crespo e bonito que está aqui, cada cor de pele, ela nos representa”, destacou Nadir. Dandara suicidou-se em 1694, quando capturada, pois seria escravizada novamente.

A segunda painelista foi a representante do Movimento de Consciência Negra Palmares de São Leopoldo, Tânia Silveira, que retomou a história dos movimentos negros da cidade e o conceito de feminismo. Ressaltou a importância do feminismo negro, pois a maioria das mulheres presentes no movimento feminista são brancas. “Embora tenhamos quase nada de registros na história da cidade sobre as mulheres negras, os que fazem parte de acervos dos museus comprovam que as mulheres negras não se calaram diante da situação de escravidão na qual se encontravam”, relatou Tânia.

Vanessa Rodrigues, estudante de História UFRGS e representante do movimento Coletivo Feminino Plural, contou a sua história como negra feminista e trouxe nomes de mulheres negras importantes para a história mundial. “Quando eu tinha 17 anos, foi em um espaço assim que tiveram pessoas, que naquela época me disseram que eu era negra. E de que forma me disseram que eu era negra? Começaram a falar das suas experiências e eu comecei a me colocar no lugar da onde eu vim, de onde eu era e o que eu estava fazendo ali. E a partir daquele momento eu percebi que sim, eu era uma mulher negra e que deveria seguir e resistir”, contou Vanessa.

Estudante de jornalismo e membro do Coletivo Afro Juventude Hamburgense, Andressa Lima, apresentou a pesquisa “Mulheres Negras, Resistência e Invisibilidade: Perspectivas transgeracionais do mundo do trabalho em terras de colonização alemã”, de sua autoria. Ela relatou que o trabalho tem um valor pessoal muito grande, afinal o objeto de estudo é a própria família. Andressa estudou as mulheres negras hamburgenses pelas memórias de sua avó e sua mãe.

As motivações para Andressa iniciar a pesquisas surgiram nas percepções diárias de sua vida. “Eu entrei na universidade em 2011 e fiquei pensando: Nossa não tenho colegas negros, só eu, só mais um outro. E isso me incomodava e eu comecei a me questionar. Foi quando começaram as disciplinas práticas e eu comecei a perceber que mesmo os entrevistados do meu curso de jornalismo, não eram negros. Foi então que eu percebi, está na hora de contarmos histórias de outra perspectiva, não só a hegemônica alemã que estamos acostumados a ouvir”, ressaltou Andressa.

O fechamento do Seminário ficou por conta da baiana, presidenta nacional da Unegro, Angela Guimarães, que abordou a necessidade do feminismo negro em todo o país. Levantou e refletiu sobre números do mercado de trabalho, educação e espaços de decisão que demonstram a falta de representativa negra. “Todo sistema econômico tem também sua representação dos espaços de dominação, de exercício do poder político, uma coisa está intimamente ligada à outra. E quando a gente vai observar os nossos espaços de representação política, a gente vai ver essa desigualdade abissal, que faz com que a invisibilidade das mulheres negras seja, quase, que completa”, relatou Angela.

Em seu discurso de abertura do evento, a secretária de Políticas para Mulheres, Danusa Alhandra, destacou a dificuldade de ser uma autoridade negra, fora do padrão reconhecido pela sociedade. “Nossa história não pode ser invisibilizada, as nossas principais lideranças e referencias de luta não podem ser invisibilizadas, então é por isso que nós temos que falar sobre o feminismo negro. Dandara, presente!”, finalizou Danusa.

A vice-prefeita, Paulete Souto, enfatizou a importância da mulher negra na vida de todos os brasileiros. “Nós abrimos o espaço do poder público, da gestão púbica, para gente discutir um tema que fundamental para a vida do brasileiro, que é falar sobre a mulher negra. A mulher negra é a mulher que amamentou a civilização antiga, lá na escravidão, a mulher negra que conduziu e carregou os filhos dos brancos”.

Também fizeram parte da mesa de saudação a Vereadora Ana Affonso, a presidenta estadual da Unegro, Elis Regina Gomes de Vargas, o secretário de Direitos Humanos, Hélio Teixeira e a diretora do Departamento de Igualdade Racial, Nadir Maria de Jesus. O evento foi uma realização da Secretária de Políticas para Mulheres, em parceira com a Secretaria de Direitos Humanos, compondo uma das atividades do Mês da Consciência Negra, Novembro Negro.