Saúde

Cuidados com os procedimentos médicos em paciente transgênero

Com o sucesso da novela da TV Globo, A Força do Querer, e a descoberta da personagem Ivana, o termo transgênero ganhou espaço e o conhecimento público acabou gerando mais exposição e aceitação, mas também gerou dúvidas. Como o corpo reage a uma descoberta dessas? Como modificar o corpo com o cuidado necessário?

A saúde é o ponto mais importante para garantir a “travessia”, como bem coloca a personagem na novela, com segurança. No Brasil, não existem dados que atestem a procura pela mudança de sexo dos órgãos genitais ou remoção das mamas, no caso de mulheres, mas nos EUA, o número aumenta 20% a cada ano.

Processo Transexualizador
As cirurgias de redesignação sexual foram autorizadas pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) nos hospitais universitários pela Resolução 1482/97 e, depois, pela Resolução 1652/02, que regulamenta os procedimentos de transgenitalismo. Recentemente, portaria do CFM libera o procedimento de ser executado apenas em centros universitários. O CFM considera que o “paciente transexual portador de desvio psicológico permanente de identidade sexual, com rejeição ao fenótipo e tendência à automutilação e ou autoextermínio” tem direito à cirurgia de transformação plástico-reconstrutiva da genitália externa, interna e caracteres sexuais secundários, com o propósito terapêutico específico de adequação ao sexo psíquico.

Segundo a cirurgiã plástica e membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica Dra. Beatriz Lassance, “cada caso é um caso. O que determina o sexo biológico de um indivíduo é o gene XX (mulher) e XY (homem). Ou seja, o DNA envia ordem para as células de glândulas produzirem hormônios que vão avisar outras células do corpo o quanto elas devem crescer ou não. Por exemplo, alguém XX vai enviar a ordem para os ovários produzirem mais hormônios femininos do que masculinos”.


Os caracteres secundários, ou seja, atributos que fazem as pessoas masculinas ou femininas dependem da produção hormonal. Pode haver erro na produção hormonal, ou seja, alguém que nasceu XX pode ter produção de hormônios femininos deficiente ou maior produção de hormônio masculino e apresentar caracteres sexuais masculinos ou vice-versa.
Com a produção hormonal adequada, o corpo precisa de receptores para esses hormônios atuarem de maneira correta. “Pode haver erro nesses receptores, ou seja, as células não entendem o que o hormônio feminino quer que ela produza, só entende o que o masculino quer, por exemplo”, comenta a médica.

Mesmo com tudo certo fisiologicamente, existem alterações ainda não explicadas, como no caso da Ivana, onde a pessoa XX com caracteres femininos bem desenvolvidos se sente pertencente a outro sexo e assim deseja mudar. Todos esses são transgênero. Não há identificação do indivíduo com o sexo que lhe foi atribuído ao nascer.

A transexualidade de sexo feminino a masculino (FtM) é um transtorno de identidade de gênero. Para Ivana, as mamas são símbolos do feminino e não combinam com ela. Portanto, quer retirar as mamas para ter a aparência mais masculina. “A cirurgia é feita como ginecomastia (retirada de mamas em homens), as mamas devem ser retiradas, dependendo de cada caso, uma técnica diferente pode ser utilizada.”

A mamoplastia é a plástica mamária indicada para mudar a forma, o tamanho, a posição, mantendo sempre a glândula mamária. “Vários artigos mostram a necessidade de retirada total da glândula em virtude de risco de câncer de mamas, porque a glândula mamária responde muito em função de hormônios. No paciente transexual, o tratamento hormonal é importante e a quantidade de hormônios utilizada é muito alta para que haja mudanças de caracteres secundários masculinos, e esse aporte hormonal aumenta a incidência de câncer de mama”, alerta Dra. Beatriz. Ou seja, mais uma vez o termo mastectomia é mais indicado.

Hormônios
Outro ponto importante a ser discutido no caso da Ivana é a utilização do hormônio testosterona. Deve ser sempre orientado por endocrinologista, pois os hormônios alteram os caracteres secundários, aumentam a quantidade de pelos, engrossam a voz, produzem hipertrofia do clitóris, mas podem ter efeitos colaterais como acne, queda de cabelos e até problemas renais quando mal administrados. Da mesma forma, nos casos de transgêneros masculinos para femininos o uso de hormônios femininos aumenta o volume das mamas, muda o padrão dos depósitos de gordura no corpo, mas pode aumentar os riscos de trombose e câncer de mamas.
É fundamental a parceria de uma equipe multidisciplinar neste assunto, pois, segundo Dra. Beatriz, este é um paciente delicado de se tratar.

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