Ana Hickmann na Glamour de novembro

Decidida a contrariar a tese datada e preconceituosa de que modelos não passam de rostinhos bonitos emoldurados em corpos perfeitos, Ana Hickmann tomou as rédeas do seu futuro. Fez do seu nome marca e, da marca, um império com faturamento anual de mais de R$ 400 milhões. Apresentadora, modelo, empresária e mãe, é exemplo de sucesso e potência feminina. “Mas não sou uma supermulher”, frisa.

São seis horas da manhã de um feriado prolongado. Enquanto milhares de carros deixam a Pauliceia, Ana Hickmann, 36 anos, faz o trajeto contrário. De Itu, onde tem uma casa de campo, ela e seus 1,20 m de pernas seguem em direção à Barra Funda, sede da TV Record. Uma das apresentadoras do programa diário e ao vivo Hoje em Dia, Ana também comanda uma bem-sucedida marca, a AH, com catorze linhas licenciadas e um faturamento expressivo. “Cuido de todos os detalhes”, faz questão de frisar, enquanto combina, pelo telefone, com o marido e sócio Alexandre Correa, os detalhes sobre o dia do filho, Alexandre Jr., de três anos. “Me divido em dez, mas estou 100% presente em tudo que faço.”

Fotos: Karine Basílio

Seu dia começou às 6h, você vai sair daqui às 13h, e esse é apenas um dos seus trabalhos. Como administra seu tempo? Tenho uma agenda pior do que a de médico, mas aprendi a administrar o meu tempo porque é o único jeito de fazer o que quero, o que amo e o que preciso. Sou muito perfeccionista, me cobro muito. Não sou supermulher, embora tenha energia de sobra para as minhas funções. Meu marido atua bastante como sócio e pai. Mas, no fim, sou eu quem controlo tudo. Sou dona do meu tempo.

 Seu sonho não era ser modelo. Ainda assim, alcançou um sucesso representativo…  Sou a mais velha de cinco irmãos. Desde muito cedo, sei o que é ter responsabilidade, já que era eu quem cuidava deles enquanto meus pais trabalhavam. Quando saí de Santa Cruz do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasci, e fui para São Paulo, em 1996, meu sonho não era a passarela, mas trabalhar para ter liberdade financeira e ajudar a minha mãe [a professora Reni], que deixou de pagar contas para arrumar o dinheiro da viagem, que seria de uma semana. No fim, liguei para ela e avisei que ficaria. Ela me perguntou como, se eu só tinha mais R$ 50. Meu primeiro contrato era de R$ 1 mil por mês, muito dinheiro para mim. Fiquei. Eu tinha quinze anos, mas já era extremamente madura. E alta [1,85 m].

 Para quem não gostava até que foi muito bom… Os primeiros seis meses foram um pesadelo. Larguei os estudos e me sentia uma estranha no ninho. Mas aprendi a amar. Pude ganhar meu dinheiro e ajudar minha família. Paris, Milão e Nova York foram minha casa. O resto do mundo virou um eterno bate-volta. Há seis anos deixei de modelar para outras marcas, pois tenho as minhas. Mas ainda faço publicidade e desfiles. A carreira de modelo, além de dinheiro, me deu vivência e memórias incríveis, como trabalhar com os fotógrafos Patrick Demarchelier e Helmut Newton.

 Seu trabalho na televisão e sua empresa têm sucesso equivalente ao da sua carreira como modelo. Foi uma transição pensada?  Quando virei modelo, entendi que não queria que acabassem com a minha carreira quando me dessem por velha. Aos 20 e poucos anos, você já escuta: “esse trabalho não vai rolar, ela é velha”. Por isso, planejei meu futuro, tracei metas, me agarrei às oportunidades. Tive sorte, mas trabalhei duro.

 A maioria das pessoas que trabalha com você é mulher. Você é feminista? As pessoas precisam olhar para a capacidade do indivíduo, e não para o seu sexo. Sou a favor dos direitos iguais e luto por eles. Se o feminismo é isso, sim. Mas sou contra o radicalismo. Quando há radicalismo, vejo mulheres se tornando tão machistas quanto homens. Na minha empresa, a maioria dos funcionários é mulher, não porque quero empregar mais mulheres, mas porque as mulheres que entrevistei tinham melhor qualificação. Meu marido e meu cunhado [Gustavo Correa] são meus sócios; além deles, outros quatro homens integram a equipe. Mulheres? Trinta e tantas.

 Já sofreu com machismo? Sim, principalmente no meu começo como empresária. O mercado ainda é muito machista. Já tive que bater na mesa e dizer: “o nome é meu, o rosto é meu, ou vai ser do meu jeito ou não vai ser” para que entendessem o recado. Entenderam. E do meu jeito tem funcionado [Ana é a celebridade brasileira que mais fatura com licenciamentos; estima-se que o faturamento das empresas que levam o seu nome esteja em torno de R$ 400 milhões por ano]. Hoje, sou respeitada, mas não é certo ter que me provar dobrado só pelo fato de ser mulher, de ser modelo.

 Você tem medo do mundo em que seu filho vai crescer?  Esse falso moralismo me assusta. Esse caso da exposição do MAM, em SP [a performance em que um homem nu era tocado por crianças, em setembro passado], é um exemplo disso. Eu não levaria meu filho para aquela exposição, mas fechar o museu por isso? Chamar de pedofilia? Não concorde, mas respeite. Enquanto se discute isso, o Brasil afunda em corrupção, violência e desigualdade. As pessoas julgam demais.