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Livro homenageia 150 anos das conclusões do “pai da genética”

As conclusões a que o cientista chegou em 1865 e publicou no ano seguinte permaneciam sem tradução para o português – até agora. A Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia lançou nesta quarta-feira (25) o livro “Mendel: das leis da hereditariedade à engenharia genética”, editado pelos pesquisadores José Roberto Moreira e Francisco Aragão. Em 502 páginas e 16 capítulos, a versão completa do primeiro artigo escrito, em alemão antigo, pelo fundador da genética é analisada e comentada por 40 especialistas brasileiros.

“É um material inédito, com o que ele conseguiu compreender de seus estudos no século 19. Naquela época, havia muitas ideias bizarras sobre as características humanas. Pensava-se que uma pessoa inteira já estava pronta dentro do espermatozoide e que o homem só liberava esse ser no útero da mulher”, explica Aragão. Ele diz que, depois, vieram as ideias das misturas: se você cruzasse uma planta alta com uma baixa, resultaria em uma intermediária; enquanto uma ovelha branca e uma preta teriam um filhote cinza. “Mas Mendel viu que não é assim que acontece, pois os caracteres se agregam de forma independente. O filho tem genes do pai e da mãe, não uma mistura dos dois”, acrescenta o pesquisador.

José Roberto Moreira e Francisco Aragão
José Roberto Moreira e Francisco Aragão

Os experimentos de Mendel foram fundamentais para trabalhos posteriores envolvendo drosófilas (moscas-da-fruta) e também para o Projeto Genoma Humano, que levou 13 anos e concluiu, em 2003, o mapeamento dos milhares de genes do homem. “As Leis de Mendel são a base para tudo o que temos hoje na genética e no melhoramento de plantas”, afirma Aragão. Passados dois séculos, os cientistas já conhecem profundamente o DNA de microrganismos, vegetais e animais, e são capazes de transferir, em laboratório, genes entre diferentes espécies, produzindo organismos transgênicos com características de interesse como resistência a doenças e insetos, tolerância a herbicidas e à seca, e maior quantidade de nutrientes.

“O livro da Embrapa aborda temas como melhoramento clássico, genética molecular e não mendeliana, engenharia genética de plantas e animais, genômica, biologia sintética, marcadores moleculares, técnicas modernas de edição gênica, como o CRISPR, produção de grãos no Brasil e uso da biotecnologia em culturas como soja, milho e algodão”, cita Aragão. Vários desses avanços têm sido usados na agricultura, para safras mais produtivas e sustentáveis, com menos uso de defensivos químicos e maior potencial para enfrentar os desafios alimentares do futuro, sem a necessidade de aumentar as áreas cultivadas. Em 2016, 26 países plantaram 185,1 milhões de hectares com variedades geneticamente modificadas (GM) em todo o mundo, segundo o relatório deste ano do Serviço Internacional para a Aquisição de Aplicações em Agrobiotecnologia (ISAAA). As nações com maior área de transgênicos são Estados Unidos, Brasil, Argentina, Canadá e Índia.

Biologia x matemática

Aragão destaca que Mendel tinha um raro conhecimento de biologia e matemática, algo que os botânicos de seu círculo não dominavam. “Hoje, as duas áreas conversam entre si, e a biologia de plantas recorre muito à matemática e à estatística, mas naquele tempo eram mundos completamente diferentes”, compara. De acordo com o pesquisador, o pai da genética tinha um estilo rígido, que não era de fácil leitura, e um profundo rigor científico. Por isso, a Embrapa contou com o aconselhamento de especialistas em genética e na língua alemã, além da análise de versões em inglês.

Um pouco de história                                                                                                          

Gregor Mendel
Gregor Mendel

Filho de agricultores, Johann Mendel nasceu em 1822, na região da Morávia, onde atualmente fica a República Tcheca. Em 1843, entrou como noviço em um mosteiro agostiniano na cidade de Brno. Ao tornar-se monge, trocou o nome de batismo por Gregor. Entre 1851 e 1853, estudou ciências naturais na Universidade de Viena, na Áustria

O pai da genética morreu em 1884, e a importância de seu trabalho só foi reconhecida em 1900. Os pesquisadores Carl Correns, da Alemanha, Erich von Tschermak-Seysenegg, da Áustria, e Hugo de Vries, da Holanda, obtiveram de forma independente resultados semelhantes aos de Mendel e, após revisar a literatura científica, encontraram os relatórios originais dele.

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