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Pediatras orientam como enfrentar a violência nas escolas

A violência deve ser inadmissível num ambiente concebido para proteger e educar. O alerta é do Departamento Científico de Saúde Escolar da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), que divulgou o documento “O enfrentamento da violência que afeta o ambiente escolar”. Com o fim do período de férias e o retorno de crianças e adolescentes às atividades escolares, o tema volta a preocupar famílias e também pediatras, que a partir de agora contam com uma série de orientações da Pediatria sobre como adotar ações concretas de prevenção à violência.

De acordo com dados do Ministério da Saúde, cerca de 42% dos alunos da rede pública de ensino relataram ser vítima de violência física ou verbal. O número alarmante, divulgado no fim de 2018, é resultado de uma pesquisa realizada com mais de 6.700 estudantes de 12 a 29 anos, em sete capitais do País: Maceió (RN), Fortaleza (CE), Vitória (ES), Salvador (BA), São Luís (MA), Belém (PA) e Belo Horizonte (MG). O estudo é uma parceria do Governo Federal com a Organização dos Estados Interamericanos (OEI) e a Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso).

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Os dados mais recentes da pesquisa, obtidos em 2016 e 2017 a partir do monitoramento de 50 escolas em Fortaleza (CE) e Porto Alegre (RS), reafirmam o triste panorama vivenciado pelos estudantes dos brasileiros. Mais da metade dos alunos do 1º e 2º ano afirma sofrer com xingamentos, brigas e bullying em redes sociais.

O cenário também se repete em Minas Gerais. Somente no primeiro semestre de 2018, a Secretaria de Segurança Pública do estado registrou cerca de 10,6 mil casos de violência em escolas da rede pública e particular. As situações envolvem estudantes, trabalhadores e outras pessoas com acesso às instituições de ensino. Entre as modalidades de violência mais comuns, estão furtos, ameaças, lesão corporal, dano ao patrimônio, desacato e atrito verbal.

Os professores representam um dos segmentos mais atingidos. Situações de conflito entre docentes e alunos foram alvo de um levantamento do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) em 2015. Os questionários demonstraram que metade dos professores já haviam presenciado algum tipo de agressão verbal ou física por parte de alunos contra profissionais da escola.

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Como forma de prevenção e enfrentamento, a família deve investir na formação de vínculo afetivo intenso com a criança ou adolescente, ampliando a comunicação e estabelecendo limites, recomendam os especialistas. Além disso, uma intensa observação comportamental do indivíduo e dos demais membros da escola também é fundamental.

A inclusão permanente do tema bullying e da violência na grade curricular representa outro método preventivo de estimulo à cultura de paz entre os alunos, professores e funcionários. Na confirmação de práticas nocivas, aponta o texto, deve ficar claro que tal comportamento é inaceitável. “As famílias de autores e vítimas de atos violentos devem estar integradas à escola – comparecendo às reuniões e eventos regularmente – e procurar orientações de suporte com o pediatra”.

O guia orienta ainda que as famílias devem ser convocadas para, junto com a escola, ampliar suas ações, chamando os alunos envolvidos, reforçando a autoestima e discutindo abertamente preconceitos relacionados a raça, cor, gênero, pobreza, religião, orientação sexual ou deficiência.

O presidente do DC de Saúde Escolar da SBP, dr. Joel Bressa da Cunha, enfatiza a importância de discutir o problema, considerado um dos principais obstáculos para o avanço da educação e saúde pública em todo o mundo. “O ambiente escolar muitas vezes é hostil para a população pediátrica. Uma pesquisa recente do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) avaliou os prejuízos gerados pelo bullying e brigas corporais ocorridos na escola. A conclusão demonstra que essas agressões têm impacto significativo na aprendizagem e bem-estar dos jovens, seja em países ricos ou pobres”, afirmou.

SINAIS DE ALERTA – De acordo com o texto, o bullying representa uma das modalidades de agressão mais comuns entre os estudantes. Entre os sinais de alerta que podem ser observados na vítima estão: mudanças de humor, recusa em ir à escola, pedido de mesada extra, isolamento social, atendimentos frequentes no serviço médico escolar, além do surgimento de dores vagas, arranhões e hematomas.

Há ainda manifestações mais severas, como ofensas verbais, ofensa sexual e agressões físicas graves, que podem acontecer dentro da escola ou no seu entorno. Outras modalidades de atos violentos – como vandalismo, furtos e até mesmo homicídios – também podem ser praticados pelos estudantes, sem relação com o problema do bullying. As motivações são variadas, mas geralmente estão relacionadas ao envolvimento com álcool ou outras drogas.

RENDIMENTO ESCOLAR – O documento ressalta ainda a existência de outras formas de violência presentes na sociedade que, embora não atinjam diretamente os estudantes, são causas de piora no rendimento escolar, como tiroteios e outros atos criminosos que influenciam no funcionamento da escola.

“Os barulhos de tiros ou de atividades noturnas que ferem a lei do silêncio acabam por perturbar o sono, o tempo e a qualidade do estudo em casa. Tiroteios impedem a saída de alunos e professores de suas casas, provocando perda de dias de aula, além de medo e apreensão. A violência que atinge familiares, resultando em mortes, também tem impacto enorme na vida pessoal e acadêmica dos alunos”, ressalta o texto.

Todo o conteúdo do documento científico foi produzido pelo DC de Saúde Escolar da SBP, composto pelos drs. Joel Conceição Bressa da Cunha (presidente); Mércia Lamenha Medeiros (secretária); Abelardo Bastos Pinto Jr; Cláudia Machado Siqueira; Elaine Mara Cesário Pereira Maluf; Maria de Lourdes Fonseca Vieira; e Paulo Cesar de Almeida Mattos.

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