Agronegócio

Cabanha Saudade, de São Gabriel, completa 70 anos aprimorando a raça Devon

Tradicional propriedade da Fronteira Oeste gaúcha fez história na criação de reprodutores da raça britânica

A Cabanha Saudade, de São Gabriel (RS), tem uma longa trajetória na seleção genética de Devon mocho e comercialização de reprodutores da raça. Em 1951, Miguel Nahra começou a investir na raça Devon, devido à sua boa adaptação aos campos da Fronteira Oeste. São sete décadas que podem ser contadas pela paixão de cinco gerações, de uma mesma família, pela raça. “A Saudade é resultado de muito trabalho, determinação e persistência. Era do meu avô, deixei para as minhas filhas e, se Deus quiser, vai ficar para os meus netos”, resume José Carlos Assis Brasil Senna, engenheiro agrônomo que foi morar na propriedade em 1975, recém-casado com Lucia Helena, para plantar arroz. Dois anos depois, aos 27 anos, assumiu as rédeas da propriedade para dar continuidade ao trabalho de Nahra.

O plantel de animais PO cresceu e, ao longo dos anos, recebeu reforços de touros importados da Inglaterra e dos Estados Unidos. O trabalho sempre foi voltado pela busca de uma sólida base genética, caracterizada por reprodutores rústicos e capazes de produzir animais aprimorados, com aptidão para melhorar a produtividade e o padrão genético dos rebanhos. Na década de 1990, o criatório contava com mais de três mil cabeças. O entusiasmo de Senna com a pecuária é contagiante. “Eu vibrava quando nascia um terneirinho e sou assim até hoje. A melhor coisa é ver nascer um terneiro bom, diferenciado, porque a gente acertou no acasalamento. Dá uma sensação de realização e de objetivo alcançado”.

A participação dos animais da Saudade em exposições agropecuárias, desde os anos 60, foi marcada pela conquista de inúmeras premiações. A comercialização de exemplares selecionados acontecia, inicialmente, com a venda direta aos produtores. A partir de 1971, as negociações eram realizadas em leilões particulares, eventos anuais que atraíam compradores de todo o Rio Grande do Sul e integraram o calendário da pecuária gaúcha. Ao todo, foram 30 remates até o ano 2.000, sendo os cinco primeiros realizados por Miguel Nahra e, os demais, pelo neto.

As ofertas de animais passaram a ser de forma itinerante, com a participação mais efetiva da família Senna em eventos agropecuários. “Nos organizamos para a venda direta na propriedade e indo a mais expofeiras, em várias cidades do estado. Foi interessante para conhecermos todo o tipo de produtor, desde o pequeno, ver o que ele procurava e tentar atender o que estava precisando. Conseguimos um resultado muito bom nesse sentido”, explica Ana Cecília Senna Ribas, hoje médica veterinária. Ela e a irmã cresceram na Saudade, em contato com os animais da raça Devon. Eram presenças constantes ao lado do pai e se formaram em áreas ligadas à agropecuária. “Convivemos a vida inteira nesse meio, desde muito pequenas, com o ‘vô’ Miguel e acompanhando também o pai. Nós fazíamos o leilão, também participamos de feiras em outros municípios e da Expointer”, conta a primogênita, Ana Júlia Teixeira Sarmento Barata, engenheira agrícola e doutora em agronegócios. Perguntada sobre as características mais marcantes na raça Devon, responde, prontamente: “a docilidade e a rusticidade”.

José Carlos Assis Brasil Senna na propriedade, em São Gabriel – Foto: Acervo/Cabanha Saudade

Em 2018, Senna passou os 1.800 animais registrados e as terras para as filhas. A marca Saudade foi dividida, a Estância ficou para Ana Júlia e Cabanha, para Ana Cecília. Ambas são comprometidas em dar sequência ao trabalho de seleção genética da “Saudade, tradição em Devon Mocho” e contam, orgulhosas, que a quinta geração da família já demonstra afinidade com o rebanho e a vida no campo.

“As primeiras palavras, tanto do Inácio (8 anos) quanto da Luiza (2 anos) foram ‘bu’, eles olhavam para os touros e ficavam chamando ‘bu, bu’, é aqui que eles estão crescendo. O Devon é a nossa meta e a nossa paixão”, ressalta Ana Cecília. A irmã complementa: “A Helena (11 anos) já participa de exposições e eventos, ela e o Lucas (6 anos) adoram ir para fora e acompanhar tudo. O pai também está presente, nos auxilia e continua ensinando muita coisa”, conta Ana Júlia.

Senna afirma que suas realizações foram alcançadas através do trabalho, feito com grande satisfação. “Eu nunca fui ambicioso, sempre gostei de olhar que eu tenho um bicho bom e uma estância organizada. Se eu tivesse outra vida, eu não seria uma pessoa feliz. E a minha realização é que elas gostam e estão continuando”.

As comemorações pelos 70 anos da Cabanha Saudade foram adiadas devido à pandemia. Mas a história da propriedade será contada em episódios, ao longo de 2021, pelas redes sociais, onde poderão ser acompanhadas pelos amigos e admiradores.

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