Um estudo multicêntrico conduzido por pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) acendeu um importante alerta para a saúde infantil no Brasil. A pesquisa identificou que o tempo médio entre o surgimento dos primeiros sintomas da Doença de Crohn e o diagnóstico definitivo chega a 17 meses — período considerado crítico, capaz de triplicar o risco de intervenções cirúrgicas em pacientes pediátricos.
Os resultados foram publicados em março de 2026 no Journal of Pediatric Gastroenterology and Nutrition, uma das principais referências internacionais na área, e reforçam a necessidade de maior atenção ao reconhecimento precoce da doença, especialmente na infância.
Sintomas pouco específicos dificultam identificação
O estudo acompanhou, durante 18 meses, 124 crianças e adolescentes de diferentes regiões do Brasil, incluindo Sudeste, Nordeste e Sul. Entre os participantes estavam pacientes atendidos em unidades de referência como o Instituto da Criança e do Adolescente e o Instituto de Gastroenterologia do Hospital das Clínicas da FMUSP.
Os pesquisadores observaram que, quando a doença afeta o intestino delgado — situação comum em pacientes jovens —, os sintomas clássicos nem sempre aparecem. Ao contrário do que se espera, a diarreia com sangue não é predominante. Em muitos casos, os sinais são inespecíficos, como dor abdominal persistente, frequentemente confundida com gastrite, além de perda de peso e cansaço.
Essa apresentação clínica menos evidente contribui para atrasos no diagnóstico e, consequentemente, para o agravamento do quadro. Quando a doença é finalmente identificada, cerca de 42% dos pacientes já apresentam atraso no crescimento, além de complicações que podem exigir cirurgias complexas, incluindo ressecções extensas do intestino e, em casos mais graves, risco de morte.
Falta de preparo na atenção básica é principal gargalo
Segundo a coordenadora do estudo, a pesquisadora Dra. Jane Oba, o principal obstáculo está na atenção primária à saúde.
“O maior problema é educacional. A Doença de Crohn ainda não está incorporada ao raciocínio clínico de muitos profissionais, o que faz com que sintomas persistentes sejam tratados como condições comuns”, destaca.
Essa lacuna no diagnóstico precoce também contribui para a subnotificação da doença no Brasil. Embora a incidência global esteja em crescimento, especialmente entre crianças e adolescentes, os números nacionais ainda são inferiores aos registrados em países desenvolvidos — possivelmente devido à dificuldade de identificação dos casos.
Tratamento ainda enfrenta barreiras no Brasil
Outro ponto relevante apontado pelo estudo é o distanciamento entre a prática clínica no Brasil e as recomendações internacionais. A Nutrição Enteral Exclusiva (NEE), considerada terapia de primeira linha para crianças com Doença de Crohn por evitar o uso de corticoides, ainda é pouco utilizada no país.
Fatores como custo elevado, desafios logísticos e ausência de protocolos padronizados limitam o acesso à terapia, levando à adoção mais frequente de medicamentos que podem causar efeitos adversos no desenvolvimento infantil.
Perfil da doença no Brasil exige abordagem própria
Os pesquisadores também identificaram que o padrão da Doença de Crohn em crianças brasileiras apresenta características distintas. Em uma população altamente miscigenada, o comportamento da doença se aproxima mais do observado em países asiáticos do que em populações europeias ou norte-americanas.
Esse achado reforça a necessidade de desenvolver estratégias de diagnóstico e tratamento mais alinhadas à realidade brasileira, considerando fatores genéticos, ambientais e socioeconômicos.
Parcerias ampliam alcance do estudo
Além da FMUSP, a pesquisa contou com a colaboração de importantes instituições de saúde e ensino do país, como o Hospital Israelita Albert Einstein, a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), a Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Diagnóstico precoce pode mudar o futuro do paciente
Para os especialistas, o principal recado do estudo é claro: o atraso no diagnóstico é um fator modificável. Com maior conscientização e capacitação dos profissionais de saúde, é possível identificar a doença mais cedo, reduzir complicações e melhorar significativamente a qualidade de vida das crianças afetadas.
Em um cenário de crescimento global das doenças inflamatórias intestinais, o avanço no diagnóstico precoce pode representar não apenas a redução de cirurgias, mas a preservação do desenvolvimento saudável de milhares de jovens brasileiros.
O artigo completo está disponível na Journal of Pediatric Gastroenterology and Nutrition (clique aqui)*





