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São Leopoldo ganha usina de biometano de R$ 95 milhões

Nova planta instalada junto à CRVR será a segunda do Rio Grande do Sul a produzir biometano a partir de aterro sanitário e terá capacidade de 34 mil Nm³ por dia

São Leopoldo dará um novo passo no aproveitamento energético dos resíduos urbanos nesta quinta-feira, 13 de agosto, quando será oficialmente inaugurada a Biometano São Leopoldo, empreendimento instalado junto à unidade da Companhia Riograndense de Valorização de Resíduos (CRVR), no Vale do Sinos.

A planta recebeu investimento aproximado de R$ 95 milhões e chega ao mercado com capacidade para produzir cerca de 34 mil Nm³ de biometano por dia. Segundo os responsáveis pelo empreendimento, esse volume corresponde, em equivalência energética, a aproximadamente 6 mil botijões de gás de cozinha de 13 quilos diariamente.

Além da dimensão econômica, a implantação chama atenção por incorporar uma fonte energética que nasce justamente de um dos maiores desafios das cidades: os resíduos sólidos urbanos.

Energia renovável produzida a partir do lixo

O combustível será produzido a partir do biogás formado naturalmente pela decomposição da matéria orgânica existente nos resíduos depositados no aterro sanitário. Esse gás passa por um processo industrial de purificação para elevar a concentração de metano e remover componentes indesejáveis, transformando-se em biometano.

A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) define o biometano como um biocombustível gasoso obtido pelo processamento do biogás. Depois de purificado e enquadrado nas especificações técnicas, ele apresenta características que permitem sua utilização em aplicações semelhantes às do gás natural.

Na prática, isso permite transformar um gás originado da decomposição de resíduos em combustível renovável para aplicações industriais, comerciais, geração energética e mobilidade, ampliando a cadeia de valorização dos materiais que chegam aos aterros sanitários.

A nova operação representa também uma mudança de escala no aproveitamento energético realizado em São Leopoldo. A CRVR já utiliza o biogás produzido na unidade para geração de eletricidade. Em 2023, a empresa inaugurou no município uma estação de triagem e uma usina termelétrica, projetos que somaram investimentos de R$ 27 milhões.

Com a produção de biometano, o mesmo ciclo de decomposição dos resíduos passa a gerar um combustível com maior diversidade de aplicações.

São Leopoldo será a segunda planta gaúcha

A unidade do Vale do Sinos será a segunda planta de biometano de aterro sanitário em funcionamento no Rio Grande do Sul.

A primeira entrou em operação em setembro de 2025, em Minas do Leão, também instalada em uma unidade da CRVR. A Biometano Sul possui capacidade de produção de 66 mil metros cúbicos por dia e recebeu investimento de R$ 150 milhões.

Biometano Sao Leopoldo 02

Somadas, as operações de Minas do Leão e São Leopoldo terão capacidade próxima de 100 mil metros cúbicos de biometano por dia. Quando anunciou o projeto leopoldense, ainda em 2024, a CRVR já projetava esse volume combinado para os dois empreendimentos.

A implantação da segunda usina consolida, portanto, um novo segmento dentro da infraestrutura energética gaúcha e coloca São Leopoldo no mapa dos investimentos relacionados à transição para combustíveis de menor impacto ambiental.

Investimento amplia importância estratégica do Vale do Sinos

O empreendimento também adiciona um componente de inovação ambiental à economia de São Leopoldo e do Vale do Sinos.

Tradicionalmente associada a setores como indústria, comércio, serviços e tecnologia, a região passa a abrigar também uma instalação destinada à produção em escala industrial de combustível renovável.

A localização da planta junto ao próprio aterro sanitário possui importância operacional. É nesse ambiente que o biogás é captado e encaminhado para os sistemas de tratamento e purificação.

Em 2024, quando confirmou a construção da unidade, a CRVR informou que as duas plantas previstas para o Estado — Minas do Leão e São Leopoldo — representariam investimentos superiores a R$ 200 milhões e ampliariam uma estratégia de aproveitamento energético do biogás que a companhia desenvolve no Rio Grande do Sul desde 2015.

A empresa mantém operações de valorização e destinação de resíduos em diferentes regiões gaúchas e informou, na ocasião, atender aproximadamente 8,5 milhões de habitantes por meio de suas unidades.

Biometano avança em momento de novas regras no Brasil

A inauguração em São Leopoldo ocorre em um momento particularmente importante para o setor brasileiro de biocombustíveis.

Poucos dias antes da abertura oficial da planta, em 7 de agosto de 2026, a Diretoria da ANP aprovou uma nova resolução para unificar e atualizar as regras referentes à especificação e ao controle de qualidade do biometano comercializado no Brasil.

Segundo a agência reguladora, as mudanças consolidam em um único instrumento as regras aplicáveis ao combustível, independentemente de sua origem, além de atualizar métodos de ensaio, procedimentos de controle de qualidade e mecanismos relacionados à segurança operacional.

O movimento regulatório acompanha o crescimento do interesse pelo combustível no País.

O biometano também está inserido na política nacional estabelecida pela Lei do Combustível do Futuro, que criou instrumentos para incentivar a substituição parcial do gás natural de origem fóssil por fontes renováveis e reduzir emissões de gases de efeito estufa no setor energético. A regulamentação do programa avançou ao longo de 2025 e 2026, incluindo mecanismos de certificação da origem do combustível.

Esse cenário tende a ampliar o interesse por projetos capazes de transformar resíduos urbanos, agroindustriais e outras matérias orgânicas em energia.

Economia circular transforma passivo ambiental em energia

O avanço do biometano também exemplifica um conceito cada vez mais presente na gestão de resíduos: a economia circular.

Em vez de encerrar o ciclo dos materiais simplesmente com sua disposição no aterro, tecnologias de captura e aproveitamento permitem obter valor econômico e energético do processo de decomposição.

Nos aterros sanitários, a matéria orgânica presente nos resíduos gera biogás. Sem aproveitamento, esse gás precisa ser controlado e destinado de forma ambientalmente adequada. Com infraestrutura específica, entretanto, ele pode ser capturado e utilizado para gerar eletricidade ou ser purificado para produção de biometano.

O resultado é uma cadeia em que um passivo da atividade urbana passa a funcionar também como matéria-prima energética.

A própria CRVR vem ampliando esse modelo no Estado. Além das plantas de biometano, a companhia mantém geração de energia elétrica a partir do biogás em unidades gaúchas, estratégia iniciada ainda na década passada.

Nova planta coloca São Leopoldo na rota da transição energética

Para São Leopoldo, a inauguração representa mais do que um investimento privado de aproximadamente R$ 95 milhões.

A entrada em funcionamento da planta associa o município a uma cadeia econômica que envolve gestão de resíduos, engenharia ambiental, produção de biocombustíveis, descarbonização e novas soluções energéticas.

Em um cenário de expansão das políticas voltadas ao uso de combustíveis renováveis no Brasil, instalações capazes de produzir biometano em escala industrial ganham relevância tanto pela possibilidade de substituição de combustíveis fósseis quanto pelo aproveitamento de recursos que já fazem parte da rotina das cidades.

A planta de São Leopoldo nasce exatamente dessa combinação: os resíduos produzidos pela população geram biogás; o biogás é captado e purificado; e o produto final retorna à economia na forma de combustível.

A lógica ajuda a transformar uma infraestrutura tradicionalmente associada apenas à destinação final do lixo em uma unidade também relacionada à produção de energia e à economia de baixo carbono.

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