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BR-116: atrasos e obras incompletas exigem respostas

Investimentos milionários, sucessivos adiamentos e dúvidas sobre a qualidade das pistas colocam obras entre o Vale do Sinos e Porto Alegre sob questionamento.

A BR-116, principal corredor rodoviário entre o Vale do Sinos e Porto Alegre, transformou-se em um exemplo de como obras públicas necessárias podem se converter em um prolongado transtorno para a população quando os cronogramas não se confirmam e as entregas deixam dúvidas sobre sua efetiva conclusão.

Não se discute a importância dos investimentos realizados na rodovia federal. A ampliação das faixas de rolamento, a construção de viadutos, novas pontes e passagens inferiores são intervenções fundamentais para atender ao intenso fluxo de veículos que circula diariamente pela Região Metropolitana.

O que precisa ser discutido, e com urgência, é a qualidade da execução, o cumprimento dos prazos e, principalmente, o que os motoristas efetivamente recebem depois de anos convivendo com obras, desvios e congestionamentos.

O caso das novas pontes sobre o Rio dos Sinos, em São Leopoldo, merece atenção especial. As intervenções começaram em março de 2021 e, em julho daquele ano, o Ministério da Infraestrutura anunciava a expectativa de conclusão no início de 2022. A previsão não se concretizou.

O episódio resume uma preocupação que agora se estende aos viadutos e passagens inferiores em construção entre Novo Hamburgo e Porto Alegre: depois de tantos investimentos e sucessivas alterações de cronograma, quais garantias existem de que as próximas entregas representarão obras realmente concluídas, seguras e adequadas às necessidades dos usuários?

Pontes sobre o Rio dos Sinos: anos de espera e problemas relatados na pista

As quatro novas pontes do complexo do Rio dos Sinos foram apresentadas como parte da solução para um dos principais gargalos da BR-116. O projeto previa ampliar a capacidade de circulação e eliminar estrangulamentos que há décadas prejudicavam o tráfego na região de São Leopoldo.

Em setembro de 2024, a imprensa regional já noticiava a conclusão das estruturas, restando providências para sua liberação ao trânsito. Em 2025, o DNIT passou a incluir as travessias entre as obras entregues no corredor metropolitano.

Entretanto, a experiência de circulação relatada ao Portal Revista News aponta problemas que não deveriam ser tratados como detalhes secundários.

Motoristas que seguiam do Vale do Sinos para Porto Alegre encontravam o término abrupto da terceira faixa nas proximidades da cabeceira da ponte, situação especialmente preocupante em uma rodovia de tráfego intenso e velocidades elevadas.

Também foram observadas ondulações no pavimento novo, irregularidades no asfalto e deficiência de sinalização em trechos recém-liberados.

Essas condições levantam questões técnicas importantes. Uma faixa adicional deve oferecer não apenas maior capacidade de tráfego, mas também transições adequadas, sinalização antecipada, pavimento regular e condições compatíveis com a segurança viária.

Uma obra não pode ser considerada satisfatória simplesmente porque o asfalto foi colocado e os veículos receberam autorização para circular.

Se existem ondulações perceptíveis logo após a execução, é necessário verificar se o pavimento atende aos parâmetros de regularidade exigidos. Se uma faixa termina de maneira abrupta, cabe examinar se a transição foi corretamente projetada, executada e sinalizada.

O DNIT precisa esclarecer quais ensaios de qualidade foram realizados, quais critérios nortearam a liberação das pistas e se existem correções pendentes.

O fato de uma intervenção integrar um empreendimento de grande porte não diminui a responsabilidade sobre seus detalhes. Pelo contrário: quanto maior o investimento e o volume de veículos atendidos, maior deve ser o rigor da fiscalização.

Investimentos expressivos e um cronograma que continua se alongando

Os valores destinados à modernização da BR-116 demonstram a dimensão do empreendimento.

Infografico BR 116 Obras e Prazos 2026

O empreendimento possui uma longa trajetória administrativa. Segundo levantamento publicado pela imprensa gaúcha, a licitação teve início em 2014 e o contrato principal foi assinado em dezembro de 2019, com valor originalmente divulgado de R$ 577,8 milhões. Posteriormente, o investimento global informado para o Lote 1 passou a aproximadamente R$ 964 milhões.

As diferenças entre os valores originalmente contratados e os investimentos mais recentes exigem transparência sobre reajustes, aditivos, alterações de projeto e ampliação de escopo. Não significam, isoladamente, irregularidade, mas justificam fiscalização e prestação de contas detalhada.

A cada mês de atraso, cresce também um custo que dificilmente aparece nas placas oficiais das obras: o tempo perdido pelos motoristas, o consumo adicional de combustível, os prejuízos ao transporte de cargas, o desgaste dos veículos e os impactos sobre a produtividade de milhares de trabalhadores.

Esse custo também precisa entrar na conta.

BR-116 pode ultrapassar R$ 1 bilhão antes da conclusão definitiva das obras

Com investimentos já estimados em R$ 964 milhões, o Lote 1 das obras da BR-116, entre Novo Hamburgo e Porto Alegre, está a apenas R$ 36 milhões de atingir a marca de R$ 1 bilhão. Um acréscimo de apenas 3,73% sobre o orçamento atualizado seria suficiente para ultrapassar esse patamar.

O histórico de reajustes nos valores divulgados, os sucessivos adiamentos e a existência de intervenções ainda não concluídas tornam legítimo questionar se o orçamento atual será suficiente para entregar todas as estruturas em condições definitivas de operação.

Caso os custos cresçam outros 10%, o investimento chegará a aproximadamente R$ 1,06 bilhão. Com um aumento de 15%, ultrapassará R$ 1,1 bilhão. São cenários hipotéticos, mas que dimensionam a importância de uma prestação de contas detalhada.

Diante desse quadro, cabe ao DNIT esclarecer se os R$ 964 milhões contemplam integralmente todas as etapas restantes, os eventuais serviços corretivos, os reajustes contratuais e a efetiva conclusão das obras. Afinal, o contribuinte tem o direito de saber não apenas quanto já foi gasto, mas quanto ainda será necessário investir para receber uma rodovia verdadeiramente pronta.

Raio-X das obras: a situação de cada viaduto e passagem inferior

O levantamento a seguir reúne o último balanço detalhado publicado em setembro de 2026, informações posteriores do DNIT e os prazos anunciados para as intervenções. Onde não foi localizada confirmação mais recente de conclusão, o prazo permanece identificado como previsão, e não como entrega efetivada.

Novo Hamburgo e São Leopoldo

Passagem inferior da Rua Pedro Álvares Cabral — km 235, Novo Hamburgo

No balanço de setembro, o lado leste estava concluído e o oeste em preparação para concretagem. As escavações inferiores haviam atingido 85%. A liberação das pistas superiores era prevista para outubro, e a passagem inferior para o fim de 2026.

Situação: conclusão integral ainda não confirmada nas fontes consultadas.

Passagem inferior do bairro Primavera — km 239, São Leopoldo

A pavimentação superior estava concluída e as juntas de dilatação em execução. As escavações inferiores atingiam 95%. As pistas superiores tinham liberação prevista para setembro, enquanto a passagem inferior deveria ser entregue até dezembro de 2026.

Situação: entrega integral ainda dependia de serviços complementares.

Passagem inferior do bairro Germânia — Novo Hamburgo

Em setembro, estavam concluídas as fundações, com pilares em execução e pavimentação da lateral direita. A previsão de conclusão era março de 2027.

Situação: em construção no último balanço disponível.

Dados do levantamento publicado em 11 de setembro de 2026, complementados por informações locais.

As três intervenções procuram melhorar a circulação entre os bairros e reduzir os conflitos provocados pela BR-116, que historicamente funciona como uma barreira física entre diferentes regiões urbanas.

Entretanto, é necessário questionar a estratégia de entrega por etapas. Liberar a parte superior de uma passagem inferior não significa necessariamente resolver o problema de mobilidade que motivou a construção.

Se as vias inferiores permanecem fechadas, os moradores continuam enfrentando deslocamentos adicionais e a obra permanece funcionalmente incompleta.

Canoas, Esteio e acesso a Porto Alegre

Viaduto sobre a Trensurb — km 259, Canoas

A intervenção envolve reconstrução e ampliação de trechos da estrutura. O prazo divulgado em setembro apontava fevereiro de 2027. Em outubro, o DNIT ainda anunciava estreitamentos de pistas e interrupções programadas na operação ferroviária para execução dos serviços.

Situação: obras comprovadamente em andamento em outubro de 2026.

Viaduto da Refap — divisa Canoas/Esteio

As fundações e a mesoestrutura estavam concluídas no último levantamento detalhado. O tabuleiro metálico encontrava-se na etapa final de fabricação, com previsão de entrega em novembro de 2026.

Situação: prazo de novembro dependente da conclusão e instalação dos componentes restantes.

Viaduto da Avenida Boqueirão — km 262, Canoas

Em setembro, encontrava-se na fase de implantação de barreiras de concreto e acabamentos. A entrega, inicialmente prevista para setembro, foi posteriormente projetada para outubro de 2026.

Situação: não foi localizada confirmação oficial de conclusão integral até o fechamento deste levantamento.

Viaduto da Metrovel — km 264, Canoas

Depois de sucessivos adiamentos, o DNIT liberou o tráfego em 25 de setembro de 2026. A estrutura passou a contar com três faixas por sentido, iluminação e novas barreiras centrais.

Situação: tráfego oficialmente liberado.

Passagem inferior da Domingos Martins — Canoas

As porções oeste e central estavam concluídas em setembro. A pista superior tinha liberação prevista para novembro de 2026, mas a parte inferior dependia também de intervenções municipais, com conclusão prevista para junho de 2027.

Situação: execução parcial, com dependência de obras complementares.

Viaduto Fronteira Oeste — entroncamento BR-116/BR-290, Porto Alegre

O projeto integra o conjunto de intervenções para melhorar o acesso à freeway. Em janeiro de 2026, o DNIT informava avanço da estrutura, com muros de contenção e estaqueamento concluídos. A previsão divulgada em maio apontava liberação em junho, mas não foi localizada confirmação oficial suficiente da entrega definitiva.

Situação: entrega integral requer confirmação atualizada.

Fontes: balanço de setembro, comunicados oficiais do DNIT de 25 de setembro e 15 de outubro e histórico das intervenções.

O caso do viaduto da Metrovel ilustra a diferença entre o planejamento e a execução. A conclusão chegou a ser prevista para agosto, depois para a primeira quinzena de setembro e, finalmente, para o encerramento daquele mês.

A liberação ocorreu em 25 de setembro, após meses de transtornos no trânsito de Canoas.

As condições meteorológicas foram apresentadas pelo DNIT como um dos fatores responsáveis pelos adiamentos. A chuva, evidentemente, interfere na execução de pavimentação e outras intervenções de engenharia. Entretanto, esse fator não elimina a necessidade de explicar como os riscos climáticos foram incorporados ao planejamento e por que determinados prazos precisaram ser revistos sucessivamente.

No viaduto sobre a linha da Trensurb, em Canoas, a complexidade é ainda maior. Os serviços exigiram interferências no transporte ferroviário, incluindo a programação de interrupção na circulação de trens entre Mathias Velho e Novo Hamburgo durante outubro.

São impactos relevantes sobre a rotina de quem depende tanto da rodovia quanto do transporte público, e que reforçam a necessidade de uma programação clara e de comunicação antecipada com a população.

A questão mais preocupante: qualidade e segurança das entregas

Uma ampliação rodoviária não se resume ao acréscimo de faixas. É necessário garantir continuidade geométrica, drenagem eficiente, pavimentação compatível com o tráfego pesado, sinalização horizontal e vertical adequada, dispositivos de proteção e acessos seguros.

Isso se torna especialmente importante na BR-116, onde automóveis, motocicletas, ônibus e caminhões compartilham um corredor intensamente utilizado.

As irregularidades relatadas nas proximidades das pontes sobre o Rio dos Sinos justificam uma verificação técnica independente da condição do pavimento e da segurança das transições entre faixas.

Não basta que o órgão responsável afirme que determinada etapa foi executada. É preciso demonstrar, por meio de relatórios e ensaios, que os requisitos previstos no projeto foram efetivamente atendidos.

Em setembro de 2026, o próprio DNIT programou intervenções no pavimento entre os quilômetros 246 e 262, trecho situado entre a região da ponte sobre o Rio dos Sinos e o viaduto da Boqueirão. O comunicado não informa que esses serviços tenham relação com os defeitos relatados, mas comprova que intervenções de pavimentação continuavam sendo realizadas naquele corredor.

A questão central é simples: quais padrões de qualidade estão sendo exigidos das empreiteiras e como o DNIT está comprovando seu cumprimento antes de liberar novas estruturas?

A população tem direito a respostas, não apenas a novos prazos

Diante da dimensão dos investimentos e da longa duração das obras, há perguntas que precisam ser respondidas publicamente pelo DNIT e pelas empresas responsáveis pela execução.

  1. Cronograma: quais são as datas contratuais atualizadas para a conclusão integral de cada viaduto, passagem inferior e trecho de pavimentação?

  2. Qualidade do asfalto: quais testes de regularidade, resistência, compactação e aderência foram realizados nas pistas novas, especialmente nas cabeceiras das pontes sobre o Rio dos Sinos?

  3. Segurança viária: as terminações e transições das faixas adicionais receberam avaliação formal de segurança antes da liberação do tráfego?

  4. Fiscalização: quais não conformidades foram identificadas, quais correções foram exigidas e quais serviços já foram aceitos definitivamente?

  5. Recursos públicos: quais aditivos e reajustes explicam a evolução do investimento total, e quanto ainda falta desembolsar?

  6. Responsabilidades: existem serviços sujeitos a refazimento ou correção pelas construtoras, sem custos adicionais ao contribuinte?

  7. Transparência: por que não disponibilizar um painel público atualizado, com percentual físico, valores pagos, pendências e datas efetivas de entrega de cada intervenção?

Não são exigências extraordinárias. São informações básicas para permitir o acompanhamento de uma obra pública que interfere diretamente na vida de milhares de pessoas.

Entregar uma obra é mais do que liberar uma faixa de trânsito

O Portal Revista News reconhece a importância dos investimentos realizados e os avanços estruturais já proporcionados pelas obras da BR-116. A ampliação da capacidade da rodovia e a eliminação de antigos gargalos são conquistas necessárias para o desenvolvimento da Região Metropolitana e do Vale do Sinos.

Mas reconhecer os avanços não significa abrir mão da cobrança.

Uma rodovia tão importante não pode ser tratada como uma sucessão de canteiros de obras com datas indefinidamente ajustáveis. Tampouco a inauguração ou liberação de uma nova pista pode substituir a demonstração de que todos os serviços foram devidamente concluídos.

A população não está pedindo um favor. Está exigindo que investimentos públicos de centenas de milhões de reais sejam transformados em infraestrutura de qualidade, segura e efetivamente pronta para utilização.

O DNIT precisa explicar os atrasos, comprovar a qualidade das pistas entregues e estabelecer um cronograma confiável para as intervenções restantes.

Ao final, o resultado das obras deve ser medido não apenas pelos quilômetros de faixas implantadas, pelas estruturas de concreto construídas ou pelos valores investidos, mas pela segurança, pelo conforto e pela redução real do tempo de deslocamento.

Depois de tantos anos de espera, é o mínimo que os usuários da BR-116 têm o direito de exigir.

A reportagem permanece aberta aos esclarecimentos técnicos do DNIT e das empresas responsáveis pelas intervenções.


Fonte principal: DNIT — portal oficial

Nota: o levantamento foi fechado em 2 de novembro de 2026. Algumas entregas previstas para outubro ainda não tiveram confirmação oficial localizada. Os problemas de pavimentação e sinalização mencionados pelo Portal Revista News devem ser apresentados como observações a serem submetidas à avaliação técnica. As imagens ilustrativas não substituem registros fotográficos de vistoria.

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Advogado em São Leopoldo André de Alexandri
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