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Industrializar é preciso: o efeito multiplicador de empregos

Em ano de eleição para governador, o Rio Grande do Sul precisa discutir como transformar matérias-primas em produtos de maior valor, renda e trabalho dentro do próprio Estado.

A indústria como motor de trabalho, renda e futuro

Industrializar não é apenas instalar fábricas. É criar uma cadeia econômica capaz de transformar conhecimento, matéria-prima, energia, logística, tecnologia e trabalho humano em produtos de maior valor. É fazer com que o que nasce no território gaúcho gere empregos no próprio Rio Grande do Sul, antes de virar riqueza em outros estados ou em outros países.

Esse debate ganha importância especial em 2026, ano em que os gaúchos irão escolher o próximo governador. Mais do que nomes, partidos ou slogans de campanha, o Estado precisa discutir um projeto de desenvolvimento. E poucos temas são tão estratégicos quanto a capacidade de preservar, modernizar e ampliar sua base industrial.

Segundo o Perfil da Indústria nos Estados, da CNI, a indústria do Rio Grande do Sul gerava 866.060 empregos em 2024, com salário médio de R$ 3.392,30 no setor. O mesmo levantamento aponta que a indústria representa 26,3% no indicador de emprego e educação do perfil industrial gaúcho.

O número, por si só, já é expressivo. Mas ele não mostra toda a dimensão do problema — nem toda a oportunidade.

A indústria tem uma característica que a diferencia de muitos outros setores: cada vaga aberta dentro de uma fábrica movimenta uma rede de atividades ao redor. Uma empresa industrial compra insumos, contrata transporte, exige manutenção, demanda embalagens, softwares, energia, serviços financeiros, engenharia, alimentação, limpeza, segurança, comércio e distribuição. O emprego industrial raramente termina na portaria da fábrica.

O efeito multiplicador: uma vaga que puxa outras

Estudos de matriz insumo-produto ajudam a mostrar esse efeito. Em Santa Catarina, estado com forte base industrial e perfil econômico comparável ao do Sul do Brasil, levantamento da FIESC em parceria com a UFSC apontou que, a cada 10 pessoas ocupadas na indústria, outros 16 empregos indiretos são gerados. Em outras palavras, para cada emprego direto na indústria, há cerca de 1,6 emprego indireto associado à atividade produtiva.

Estudo internacional da UNIDO, agência das Nações Unidas para o desenvolvimento industrial, reforça a mesma lógica em escala global. O relatório aponta que, para cada emprego direto criado na indústria de transformação, são gerados 2,2 empregos adicionais em outros setores, efeito superior ao observado em atividades não industriais e em serviços modernos.

Aplicando uma faixa prudente ao caso gaúcho — entre 1,5 e 2 empregos indiretos para cada posto direto na indústria — os 866 mil empregos industriais do Rio Grande do Sul podem estar associados a algo entre 1,3 milhão e 1,7 milhão de empregos indiretos adicionais.

Somando postos diretos e dependentes da cadeia industrial, o universo de trabalho ligado à indústria gaúcha poderia alcançar algo entre 2,2 milhões e 2,6 milhões de ocupações.

É uma estimativa, não um número oficial fechado. Mas é uma estimativa suficiente para dimensionar o peso estratégico da indústria. Quando uma fábrica fecha, reduz produção ou deixa de se expandir, o impacto não fica restrito aos seus funcionários diretos. Atinge fornecedores, transportadores, prestadores de serviços, comércio local e arrecadação pública.

Serviços empregam mais diretamente, mas são mais vulneráveis à automação

É verdade que o setor de serviços é o maior empregador formal direto do Rio Grande do Sul. Dados do Novo Caged mostram que, em 2024, os serviços lideraram a geração de empregos no Estado, com 36.868 vagas formais criadas, elevando o estoque do setor para 1.213.262 vínculos formais.

Esse peso não pode ser ignorado. Serviços são essenciais, especialmente em áreas como saúde, educação, tecnologia, comunicação, alimentação, turismo, transporte, finanças e atendimento à população.

O problema é que parte relevante das ocupações de serviços está entrando em uma zona de forte transformação tecnológica. A inteligência artificial, os sistemas automatizados, os aplicativos, os caixas de autoatendimento, os robôs de atendimento e os softwares de gestão estão substituindo tarefas repetitivas em ritmo acelerado.

O Fórum Econômico Mundial, no relatório Future of Jobs Report 2025, aponta que funções administrativas, de secretariado, caixas, atendentes de bilheteria, bancários operacionais, digitadores e escriturários postais estão entre as ocupações com maior tendência de queda nos próximos anos. O mesmo relatório destaca que 86% das empresas consultadas esperam que inteligência artificial e tecnologias de processamento de informação transformem seus negócios até 2030.

Isso não significa que os serviços irão desaparecer. Significa que muitos empregos de serviços, especialmente os baseados em tarefas repetitivas, serão reduzidos, reorganizados ou substituídos. O desafio será criar novas ocupações de maior qualificação, mas isso exige tempo, educação, investimento e capacidade de adaptação.

Nesse cenário, a indústria moderna pode cumprir um papel decisivo. Ela também automatiza, mas continua puxando cadeias físicas, logísticas, técnicas e territoriais. Uma fábrica competitiva não gera apenas operadores de máquina. Gera demanda por mecânicos, eletricistas, programadores, técnicos de manutenção, engenheiros, designers, transportadores, vendedores, especialistas em qualidade, profissionais de comércio exterior, fornecedores locais e serviços especializados.

O erro de exportar o futuro junto com a matéria-prima

Um dos grandes equívocos econômicos de qualquer região é se acostumar a exportar matéria-prima e importar produtos de maior valor agregado. Quando isso acontece, o território vende o insumo bruto, mas entrega a outros lugares a melhor parte da cadeia: o beneficiamento, a transformação, a tecnologia, a embalagem, a marca, a distribuição qualificada e os empregos mais bem remunerados.

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Industrialização do RS: um pilar indispensável nos planos de governo para 2026

O Rio Grande do Sul tem uma base produtiva poderosa. Produz alimentos, grãos, carnes, madeira, celulose, couro, fumo, máquinas, componentes, polímeros, calçados, veículos, implementos agrícolas e uma série de insumos industriais. Mas a pergunta estratégica é: quanto disso sai do Estado ainda com baixo grau de transformação? Quanto poderia ser beneficiado aqui? Quantos empregos poderiam permanecer no território gaúcho se mais etapas fossem realizadas dentro do próprio Estado?

Os dados de exportação mostram a força e, ao mesmo tempo, a dependência da pauta gaúcha. Em 2025, os principais grupos exportadores do Rio Grande do Sul foram o complexo soja, com US$ 5 bilhões; fumo e seus produtos, com US$ 3 bilhões; carnes, com US$ 2,7 bilhões; produtos florestais, com US$ 1,2 bilhão; cereais, farinhas e preparações, também com US$ 1,2 bilhão; e veículos rodoviários, com US$ 1,1 bilhão.

No primeiro semestre de 2025, entre os dez principais produtos exportados pelo RS estavam fumo não manufaturado, soja em grão, cereais, carne de frango, farelo de soja, celulose, carne suína, polímeros de etileno em formas primárias, partes e acessórios de veículos automotivos e calçados.

A lista revela um Estado com grande capacidade produtiva, mas também expõe a necessidade de avançar no beneficiamento. Não basta comemorar embarques. É preciso perguntar que parte da riqueza fica aqui.

Quando a soja sai em grão, perde-se a oportunidade de ampliar cadeias de alimentos, proteínas, óleos, biocombustíveis, química verde e ingredientes industriais. Quando produtos florestais saem com baixo grau de processamento, empregos ligados a móveis, design, construção, papel, embalagens e novos materiais podem migrar para outros centros. Quando insumos agropecuários saem sem transformação suficiente, o Estado exporta também parte da renda que poderia circular em suas cidades.

Exportar é fundamental. O problema não é vender ao mundo. O problema é vender pouco valor agregado e depois comprar de volta produtos mais caros, intensivos em tecnologia, marca e trabalho qualificado.

Industrializar é uma política de permanência da riqueza

A industrialização deve ser vista como uma política de permanência da riqueza no território. Quanto maior a capacidade de transformar localmente a produção, maior tende a ser o efeito sobre emprego, renda, arrecadação e desenvolvimento regional.

Isso vale para a Região Metropolitana, mas também para a Serra, o Vale do Sinos, o Vale do Taquari, a Fronteira, o Noroeste, a Campanha, o Litoral e o Sul do Estado. Cada região gaúcha tem vocações produtivas que podem ser convertidas em cadeias industriais mais densas.

Não se trata de nostalgia de uma indústria antiga, pesada e isolada do mundo digital. A industrialização necessária para o Rio Grande do Sul é moderna, limpa, tecnológica e conectada. Passa por automação, inteligência artificial, eficiência energética, design, logística inteligente, exportação, qualificação profissional e integração com universidades, centros tecnológicos e pequenas empresas fornecedoras.

O ponto central é que tecnologia não pode ser sinônimo apenas de substituição de trabalhadores. Precisa ser instrumento para elevar produtividade, abrir novos mercados e criar ocupações mais qualificadas.

O próximo governo terá de escolher uma direção

Em 2026, a eleição para o governo do Rio Grande do Sul deveria colocar esse tema no centro do debate. Qual será a política industrial do Estado? Como ampliar o beneficiamento de matérias-primas gaúchas? Como atrair investimentos sem abrir mão de cadeias locais? Como reduzir gargalos logísticos? Como formar mão de obra técnica? Como aproximar escolas, universidades, empresas e centros de inovação? Como impedir que regiões inteiras dependam apenas de serviços frágeis, comércio sazonal ou atividades de baixa produtividade?

Essas perguntas são mais importantes do que promessas genéricas.

O futuro governador terá nas mãos decisões que podem influenciar a vida de milhões de gaúchos. Incentivos fiscais, infraestrutura, licenciamento, educação técnica, inovação, compras públicas, energia, conectividade, estradas, portos, ferrovias e segurança jurídica são peças de uma mesma engrenagem.

Se o Estado não tiver uma estratégia clara, continuará vendo parte de sua riqueza sair em caminhões, navios e contêineres para gerar empregos em outros lugares.

A fábrica como centro de uma rede social e econômica

Toda fábrica é mais do que uma unidade produtiva. Em muitas cidades, ela organiza a vida econômica ao redor. O salário pago ao trabalhador industrial vira consumo no mercado, mensalidade escolar, reforma da casa, compra no comércio local, pagamento de serviços e arrecadação para o município.

Quando uma indústria cresce, o impacto se espalha. Quando uma indústria fecha, o vazio também se espalha.

Por isso, discutir industrialização não é defender apenas empresários ou setores produtivos. É discutir a sustentação de empregos, a permanência dos jovens nas cidades, a renda das famílias, a força do comércio, a arrecadação dos municípios e a capacidade do Estado de financiar políticas públicas.

O Rio Grande do Sul não pode se contentar em ser apenas fornecedor de insumos. Tem tradição técnica, cultura produtiva, universidades, mão de obra qualificada, empreendedores, cooperativas, polos regionais e experiência exportadora. O que falta é transformar esse conjunto em prioridade permanente de desenvolvimento.

Uma agenda para além da eleição

O debate eleitoral passa, mas as escolhas econômicas permanecem. O Rio Grande do Sul precisa decidir se quer apenas administrar dificuldades ou construir uma nova etapa de crescimento.

Industrializar é preciso porque a indústria multiplica empregos. Industrializar é preciso porque agrega valor. Industrializar é preciso porque reduz a dependência de atividades mais vulneráveis à automação. Industrializar é preciso porque transforma matéria-prima em renda local. Industrializar é preciso porque sem produção forte não há desenvolvimento equilibrado.

O avanço das tecnologias não permite ingenuidade. Parte dos empregos tradicionais de serviços será pressionada por sistemas digitais, inteligência artificial e automação. A resposta não está em rejeitar a tecnologia, mas em criar uma economia capaz de usar a tecnologia para produzir mais, melhor e com maior valor agregado.

O Rio Grande do Sul já tem os insumos. Tem história industrial. Tem capacidade técnica. Tem trabalhadores. Tem conhecimento. Tem mercado. Tem vocação exportadora.

A pergunta que precisa orientar o debate público é simples: vamos continuar enviando matéria-prima para gerar empregos fora, ou vamos transformar mais riqueza aqui dentro?

Essa talvez seja uma das questões mais importantes para quem pretende governar o Estado nos próximos anos.

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